“A cada mil anos, aproximadamente…

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… os deuses permitem que um herói seja trazido até minhas praias, alguém que precise de minha ajuda. Cuido dele e me torno sua amiga, mas nunca é por acaso. As Parcas cuidam para que o tipo de herói que enviam… (…) Elas enviam uma pessoa que não pode ficar. Que não pode aceitar minha oferta de companhia por mais do que algum tempo. Elas me mandam um herói por quem eu não consigo… O tipo de pessoa por quem não consigo evitar me apaixonar”

Calipso, Percy Jackson e os Olimpianos – A Batalha do Labirinto

Rivercourt.

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Carta número 1.

Veja você, hoje foi um dia esquisito.

Aproveitando mais um dia chuvoso com o qual fomos brindados, eu parei para contemplar o horizonte e fazer uma lista mental das pessoas que eu não via mais. Seja por peripécias do destino, seja por peripécias das próprias pessoas, você acaba se distanciando de gente que gostaria que ficasse perto, e isso é inevitável, mas há um porém:

Talvez as pessoas das quais você mais sente falta de ver são aquelas com as quais você não trocou uma palavra.

A vida é mais fácil quando você passa a idealizar as pessoas que compartilham o mesmo horizonte que você. A própria vida delas parece mais fácil e tudo parece mais feliz. Uma pessoa que você não vê há muito tempo, uma pessoa que passava pela rua e não passa mais, uma pessoa que foi embora e não deu mais notícia, e para todas elas você cria uma vida, você quer que elas estejam felizes mais do que tudo, até porque não é admissível que elas tenham saído da sua vida para serem menos felizes.

Talvez seja por isso que eu sinta tanto sua falta.
Eu simplesmente não troquei palavra alguma com você.

Subentendido.

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– Recebi um convite. – Ela disse.

E oh, o quanto ela tinha lutado por isso é algo que não se coloca em palavras, senhoras e senhores! Não. As notas boas, as atividades extracurriculares, o bom comportamento, uma aluna-modelo. Tudo aquilo, durante os 6 meses mais corridos – e mais maravilhosos – de sua vida, só por causa daquele convite que ela havia praticamente acabado de receber.

– Recebi um convite. – Ela repetiu, e notando o olhar confuso dele, completou: – O pessoal da faculdade me quer aqui por mais um semestre, e o pessoal na outra universidade disse que não há problemas!

Havia três coisas naquela sala naquele momento que valem a pena a nota escrita – um sorriso desesperado por outro, um coração batendo e o aparelho de CD ligado tocando baixinho a música She Has No Time. Voltando àquele momento, ela agora entende porque sempre amou aquela música e aquela banda, e que apesar de pouco apropriada, deu mais vida ao silêncio da espera.

Ele balbulciou algumas coisas. Fez alguns gestos. E perguntou baixinho algo como ‘e o que você está esperando?’
– Eu não estou te colocando contra a parede, essa não sou eu. – Ela interrompeu. – Eu sei o quanto deve ser difícil pra você admitir seus sentimentos, sejam de amizade ou de algo mais. Mas eu preciso que você diga as palavras. Eu preciso.

Não era pedir muito esperar que ele dissesse que queria que ela ficasse. As coisas são diferentes quando são ditas em voz alta, e não apenas pensadas ou encaixadas num subentendido forçado que mais parece uma lavagem cerebral. Algumas coisas simplesmente soam melhores ou piores quando ditas de verdade, e certas pessoas valem esse risco. Se havia uma coisa que ela aprendeu em todos esses anos – e especialmente nesses últimos meses – é que cada palavra dita importa tanto quanto as ações.

– Eu te amo. – Ele disse.

Não, ele não disse que queria que ela ficasse, ele fez melhor. Dizendo que a amava, ele usou o irritante subentendido para dizê-la que queria o melhor pra ela, e ficar ou não era uma decisão que só cabia a ela tomar. E então ela pegou sua mão gentilmente, usando o irritante subentendido pra dizer que ele fazia parte dessa decisão – que tomando um caminho ou outro, isso afetaria aos dois.

Quando entrou na sala para dar essa notícia, ela esperou que ele a pedisse pra ficar, mas ele não pediu. Claro que você, leitor, vai entender que ela ficou, e que eles foram felizes para sempre, e que sempre pensaram nesse momento como o começo de tudo, embora irritantemente subentendido em cada ação, isso já estivesse escrito em seus destinos, em suas bolas de cristal ou em suas bolhas de sabão. Ou nas espumosas ondas do mar da California.

“You think your days are ordinary
And no one ever thinks about you
But we’re all the same
And she can hardly breathe without you

She says she has no time for you now.”

Keane – She Has No Time

Nineteen.

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“Eu estou sempre me perguntando: ‘E aí, Ed, o que você fez de útil nesses 19 anos de vida?’ A resposta é simples:
Porra nenhuma.”*

Quando você faz 17 anos, a vida é só alegria – você já pode beber umas doses a mais do que podia quando tinha 15 anos (e achava que era o rei da cocada preta). Quando você faz 18 anos, a vida começa a preocupar a sua cabeça, porque você (provavelmente) vai pra faculdade, coloca na sua cabeça o que vai fazer com sua existência pelo resto da vida e não resta mais nada além de fazer direito e lembrar de colocar os amigos que sobraram do Ensino Médio num potinho pra não sair mais.

E aí você faz 19 anos. Aquela voz na consciência que você costumava ignorar e guardar todos os seus rancores do passado começa a jogar as coisas na sua cara e perguntar com aquela voz esganiçada “O que você vai fazer com tudo isso?”. Até porque, você não pode mais passar pros 20 anos com os mesmos problemas, com as mesmas angústias.

Por mais que você queira sair do pessoal e colocar uma porção de metáforas aqui, chega uma hora na sua vida que comemorar seu aniversário não é mais uma declaração apaixonada do que você quer mudar ou guardar, e sim um inventário das coisas que você já fez, das coisas que você vai escolher levar com você e aquelas que você vai definitivamente jogar fora.

Gostaria de dizer que vou carregar comigo infinitas coisas que aconteceram ano passado, e gostaria também de dizer que serei capaz de deixar certas coisas irem embora, mas eu estaria mentindo. Minha promessa pra 19 anos é ser simplesmente um work in progress, uma coisa que está se encaminhando e se moldando.

19 anos. Aquariana. Um trabalho em progresso.

“So what would you think of me now? So lucky, so strong and so proud. I never said ‘thank you’ for that.”**

Eu Sou o Mensageiro, Markus Zusak.
**  Hear You Me, Jimmy Eat World.

Amanhecer.

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As pessoas podem dizer o que quiserem, mas para mim, o momento mais bonito do dia é o amanhecer. Também não aquele amanhecer característico esteriotipado de um fim de semana na praia ilustrado em um filme hollywoodiano – não que esse não seja igualmente bonito -, mas sim aquele amanhecer que você realmente vê, e não somente olha.

Existe algo que paira entre a escuridão da noite que passou e a claridade do dia que está por vir, algo que torna aqueles minutos mágicos, únicos e atemporais, algo que nos tira da escuridão e é quase tão tangível com as mãos e com o coração quanto a palma da mão de quem se ama estendida em sua direção. A linha tênue entre a continuidade e complexidade da noite que passou e a maré de mudanças que o novo dia trará, entre o passado do hoje que tão repente tornou-se ontem e o futuro do amanhã que tornou-se hoje.

Mais do que uma disputa meteorológica do sol ou chuva, mais do que um vale-tudo de opções, é o amanhecer. A certeza única entre o ontem, o amanhã e a rotação do planeta Terra.

Caminhão de Mudança

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Já faz um tempo que eu ando querendo dar uma cara nova pra mim. Pro meu blog. Pra minha vida. Pra mim.
Eu parei e pensei que talvez precisasse voltar pra São Paulo pra fazer o que eu precisava fazer, mudar o que eu precisava mudar, e reescrever os textos que estavam precisando de uma boa reforçada de lápis. Sabe, aquelas palavras que você disse, mas não quis dizer, mas deveria ter dito mesmo assim, e que às vezes precisam que você mesmo se lembre que uma vez as disse.

A grande verdade da vida é que se você quer mudar de rosto, de atitudes, de casa, não importa na verdade pra onde você vá. A única coisa que você tem que fazer é estar em algum lugar.