
- Recebi um convite. – Ela disse.
E oh, o quanto ela tinha lutado por isso é algo que não se coloca em palavras, senhoras e senhores! Não. As notas boas, as atividades extracurriculares, o bom comportamento, uma aluna-modelo. Tudo aquilo, durante os 6 meses mais corridos – e mais maravilhosos – de sua vida, só por causa daquele convite que ela havia praticamente acabado de receber.
- Recebi um convite. – Ela repetiu, e notando o olhar confuso dele, completou: – O pessoal da faculdade me quer aqui por mais um semestre, e o pessoal na outra universidade disse que não há problemas!
Havia três coisas naquela sala naquele momento que valem a pena a nota escrita – um sorriso desesperado por outro, um coração batendo e o aparelho de CD ligado tocando baixinho a música She Has No Time. Voltando àquele momento, ela agora entende porque sempre amou aquela música e aquela banda, e que apesar de pouco apropriada, deu mais vida ao silêncio da espera.
Ele balbulciou algumas coisas. Fez alguns gestos. E perguntou baixinho algo como ‘e o que você está esperando?’
- Eu não estou te colocando contra a parede, essa não sou eu. – Ela interrompeu. – Eu sei o quanto deve ser difícil pra você admitir seus sentimentos, sejam de amizade ou de algo mais. Mas eu preciso que você diga as palavras. Eu preciso.
Não era pedir muito esperar que ele dissesse que queria que ela ficasse. As coisas são diferentes quando são ditas em voz alta, e não apenas pensadas ou encaixadas num subentendido forçado que mais parece uma lavagem cerebral. Algumas coisas simplesmente soam melhores ou piores quando ditas de verdade, e certas pessoas valem esse risco. Se havia uma coisa que ela aprendeu em todos esses anos – e especialmente nesses últimos meses – é que cada palavra dita importa tanto quanto as ações.
- Eu te amo. – Ele disse.
Não, ele não disse que queria que ela ficasse, ele fez melhor. Dizendo que a amava, ele usou o irritante subentendido para dizê-la que queria o melhor pra ela, e ficar ou não era uma decisão que só cabia a ela tomar. E então ela pegou sua mão gentilmente, usando o irritante subentendido pra dizer que ele fazia parte dessa decisão – que tomando um caminho ou outro, isso afetaria aos dois.
Quando entrou na sala para dar essa notícia, ela esperou que ele a pedisse pra ficar, mas ele não pediu. Claro que você, leitor, vai entender que ela ficou, e que eles foram felizes para sempre, e que sempre pensaram nesse momento como o começo de tudo, embora irritantemente subentendido em cada ação, isso já estivesse escrito em seus destinos, em suas bolas de cristal ou em suas bolhas de sabão. Ou nas espumosas ondas do mar da California.
“You think your days are ordinary
And no one ever thinks about you
But we’re all the same
And she can hardly breathe without you
She says she has no time for you now.”
Keane – She Has No Time
Curtir isso:
Curtir Carregando...